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29.01.2009 | 0:12

Faixa de negociação: risco ou oportunidade?

Publicado na(s) categoria(s) Aprendizado, Carlos Debastiani, por Aluno

A crise que se instalou na Bolsa de Valores de São Paulo à partir da segunda metade de 2008, e que colocou em polvorosa a grande maioria dos investidores, parece ter encontrado seu termo. Se ainda não temos altos índices de valorização e uma nova tendência de alta vigorosa e determinada (como vimos nos últimos anos), ao menos podemos observar, aliviados, que a tendência de baixa já encontrou seu nível de esgotamento (pelo menos por enquanto).

Em muitos papéis, a violenta queda que desenhava longas barras nos gráficos e verticalizava a inclinação de suas linhas de tendência, já cede lugar a uma formação bem mais horizontalizada. Boa parte das blue chips já apresenta gráficos com movimentos laterais e oscilações de certa magnitude, que demonstram não haver grande disposição para baixa, embora a desconfiança dos investidores e a fragilidade globalizada do cenário internacional ainda não possibilitem a retomada dos negócios (que certamente virá, num futuro não muito distante).

Esse tipo de movimento lateral é bastante comum após períodos de fortes quedas. Me lembro que, durante o mês de Outubro, numa reunião em família, me perguntavam o que eu achava que aconteceria com a bolsa de valores nos próximos meses. Minha previsão foi de que os preços cairiam até atingir os patamares necessários para expulsar todos os investidores comprados que não mais acreditavam no mercado. Uma vez estancada a queda provocada pelo alto volume de vendas, haveria um momento de recomposição, talvez longo, no qual o mercado iniciaria uma reavaliação do cenário e do preço justo a ser pago por cada ação. Esse momento de recomposição seria marcado por movimentos laterais e oscilações de preços, típicos de um mercado indeciso e controverso.

Os gráficos de diversos papéis têm desenhado, nos últimos meses, uma formação que chamamos de faixa de negociação. Alguns analistas a chamam de zona de congestão ou acumulação, mas eu prefiro distinguir a faixa de negociação de uma congestão ou acumulação, por entender que possuem características gráficas diferenciadas.

Numa zona de congestão ou acumulação temos baixa volatilidade e barras quase paralelas nos gráficos (é o típico “andar de lado”). Essa situação é extremamente perigosa para operar, já que não há indícios seguros sobre a vitalidade da pressão de compra ou de venda (que estão totalmente equilibradas) e muito menos sobre qual caminho os preços irão tomar depois que deixarem a região de acumulação.

Nas faixas de negociação, a volatilidade é bem maior e, dependendo de sua extensão, podem dar origem a tendências de curto prazo que permitem até obter lucro negociando com os papéis (se o perfil do investidor for de curto prazo). A faixa de negociação tem linhas visíveis de suporte e resistência e podem oscilar entre ambos por um bom tempo. Da mesma forma como ocorre com a zona de congestão, não sabemos se a faixa de negociação vai originar uma tendência de alta ou de baixa após seu término mas, enquanto isso não acontece, quem estiver disposto a correr algum risco, poderá ganhar dinheiro operando dentro dela, comprando na região de suporte e vendendo na região de resistência.

Determinar esses limites e o momento certo para operar não é tarefa fácil, nem precisa, mas existem ferramentas que permitem identificar tais pontos com relativa margem de acerto. Obviamente, a oportunidade criada pela faixa de negociação não está dissociada de certo grau de risco.

Em meu livro Análise Técnica de Ações, eu traço algumas estratégias envolvendo indicadores técnicos que costumam se comportar muito bem quando aplicados à faixas de negociação, indicando os pontos possíveis de reversão junto a suportes e resistências, particularmente o Estocástico e as Bandas de Bollinger. O indicador OBV, por sua vez, oferece um outro recurso: uma idéia aproximada sobre qual tendência o papel deverá tomar no futuro. Um acréscimo significativo no OBV indica entrada de grande volume de capital e, portanto, existência de pressão de compra, favorável à valorização do papel. De forma análoga, uma queda do OBV teria efeito indicativo contrário, já que a saída de capital forte ensejaria pressão de venda.

Vamos olhar para o gráfico de uma das principais ações do Ibovespa, a VALE5, para avaliar a extensão e a potencialidade de uma dessas faixas de negociação (abaixo).

Clique na imagem abaixo para ampliar


Note quantos topos e fundos se formaram durante os 4 meses em que o papel se encontra nessa faixa de negociação, cujos preços oscilam entre R$ 20,00 e R$ 30,00. Aliás, essa é uma peculiaridade que torna essa faixa de negociação muito interessante. Se tomarmos por base o fundo e o topo mais extremo da formação, computaremos uma lucratividade de quase 50%. Sob o ponto de vista da análise técnica, alguns fatores pesam a favor de um futuro movimento de alta:

  • A existência de fundos cada vez mais altos no decorrer do tempo.
  • A ruptura superior de um triângulo com um gap de corte, no início de Dezembro. Repare como a parede rompida do triângulo foi testada 3 dias depois. Ali formou-se uma região de suporte intermediário, que foi confirmada em 26 de Dezembro por um padrão de candles de dupla configuração (é “Harami de Fundo” e “Pinças de Fundo”, ao mesmo tempo).
  • O comportamento do OBV, que vem apresentando crescimento ao longo do tempo e formou um canal de alta. Repare que os preços que compõem o topo existente no início de Novembro/2008 são os mesmos praticados no final de Janeiro/2009, mas o OBV já está muito acima.
Vivemos um momento de hesitação no mercado brasileiro de ações. Não temos mais a pungente tendência de alta com a qual nos acostumamos no decorrer desta última década. Contudo, não adianta reclamar, é preciso encontrar soluções e novas estratégias para continuar extraindo do mercado aquilo que ele pode nos dar. Operar com objetivo de curto prazo pode ser uma delas. Acredito que muitas das faixas de negociação que estão se formando nesses últimos meses podem perdurar ainda por um bom tempo. Se analisarmos sua extensão e identificarmos ao menos um potencial mínimo de lucro, talvez possamos explorá-las.

Carlos Alberto Debastiani é empresário, investidor e autor dos livros “Candlestick“, “Análise Técnica de Ações” e “Avaliando Empresas, Investindo em Ações“.

2 Comentários

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  1. Fernando Pires disse:

    Muito bom o texto Dalton. Não compartilho deste entusiasmo todo do Debastiani, mas também visualizo a formação de um fundo que parece cada vez mais estar ficando para trás.
    Sem dúvida é possível o teste da região dos 29.000 pontos no IBOV, mas esta hipótese vai ficando remota a cada nova perna de alta e congestão do IBOV.
    Caso tenhamos uma queda ou o teste desta região acredito sinceramente numa reversão próximo a estes patamares.
    Sendo assim o teste dos 29.000/25.000 pode ocorrer mas na minha opinião para formar o fundo do ano.
    Abraços.

  2. Dalton Vieira disse:

    Olá Fernando,

    Muito obrigado pelo comentário no excelente artigo do Carlos A. Debastiani. De vez em quando estaremos recebendo mais esta colaboração de aprendizado no blog.

    Acredito também que uma queda do IBOV para dos 29 a 25 mil pontos poderá marcar o fundo do ano.

    Obrigado Carlos por enriquecer o conteúdo do blog com seus artigos.

    Grande abraço.
    Dalton Vieira

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