16.03.2009 | 18:53
Venda coberta de opções
Publicado na(s) categoria(s) Aprendizado, Elvis Pfützenreuter, Opção, por epx
Olá amigos e investidores,
A seguir mais um artigo do Elvis Pfützenreuter sobre investimento em opções.
A venda coberta de opções consiste em lançar (vender a descoberto) algumas opções, enquanto se possui o ativo subjacente em igual número. Exemplo: se eu possuo 1000 ações VALE5, posso lançar 1000 opções de compra VALE*** — por exemplo, VALED30 — não importa o valor de exercício (strike) ou o mês de vencimento.
Lançar opções de venda é um pouco mais complicado, pois neste caso o “lastro” da operação teria de ser uma venda a descoberto de ações. Para o investidor amador, acabaria sendo mais fácil oferecer uma garantia em dinheiro. Como o mercado de opções de venda ainda é muito pequeno no Brasil, vamos ignorar a venda de opções de venda. Por enquanto.
Cabe aqui um esclarecimento. Lançar opções é, de certa forma, vendê-las a descoberto, já que o investidor está vendendo algo que não possui. Porém, isto é diferente de vender ações a descoberto. Para vender ações a descoberto, é preciso alugar as ações de outro alguém que as possua — o que a corretora providencia automaticamente. A questão é que a quantidade total de ações no mercado continua sendo a mesma. Já no caso das opções, a venda a descoberto cria um papel novo, e a quantidade de opções no mercado aumenta, por isso dizemos que a opção foi “lançada”.
Minha operação predileta com opções é a venda coberta de opções de compra. Apesar da infinita variedade de operações à disposição do investidor, acabo sempre ficando com a venda coberta, e vou dar meus motivos:
1) Preguiça. A venda coberta é fácil e não exige muita dedicação. Mesmo que eu não possa acompanhar minha carteira por um tempo, não corro riscos ilimitados, como seria o caso numa venda descoberta.
2) Certeza do desfecho. A operação só tem dois desfechos possíveis. Ou a ação sobe acima do valor de exercício (Strike) e eu sou exercido, ou não. O dinheiro arrecadado com a venda das opções nunca mais sai do meu bolso.
3) Gosto da relação risco/retorno desta operação. Isto já é uma opinião totalmente pessoal, outros investidores certamente consideram seu retorno muito pequeno.
4) Facilidade e baixo custo de implementação. Minha corretora permite fazer venda coberta através do home broker, enquanto uma trava de baixa já teria de ser feita por telefone, ou através do home broker “avançado” que custa uma mensalidade muito mais cara.
5) Baixo custo de corretagem: paga-se corretagem uma vez para lançar as opções, e talvez mais uma vez se elas forem exercidas, ou a operação for desmontada. Operações mais complexas custam muito mais em corretagem, o que come uma parte importante do lucro quando o investidor ainda não é milionário.
6) Tira proveito do fato que vender opções dá mais dinheiro ao longo do tempo do que comprá-las, da mesma forma que uma seguradora é em geral lucrativa. Na medida em que mais e mais investidores lancem opções, isto pode deixar de ser verdade; veremos depois qual o critério para saber se a operação vale a pena.
7) Funciona como “laboratório” para aprender-se a operar com opções, e mesmo para tentar operações um pouco mais arrojadas. Isto será objeto de um próximo artigo.
Naturalmente, a venda coberta tem suas desvantagens.
1) Exige mais capital que outras operações com opções. Isto é resultado natural do baixo risco e baixo retorno. Para se fazer uma venda coberta, é preciso possuir no mínimo um lote de ações cujas opções tenham mercado líquido (Vale, Petrobrás ou Telemar). E, com apenas um lote, o custo de corretagem acaba comendo uma parte considerável do lucro.
2) Pode matar o investidor de tédio, pois normalmente operará apenas uma vez por mês.
3) A carteira de ações do investidor fica limitada a poucos papéis (Vale, Petrobrás e Telemar). Se o investidor prefere diversificar em um grande número de ações, terá pouco ou nenhum lastro para a venda coberta (mas poderia então pensar em lançar opções sobre o IBOVESPA).
Também não é toda e qualquer opção que vale a pena vender. A regra geral é: as opções com vencimento mais próximo, e mais ATM (at-the-money, ou seja, com valor garantido mais próximo do valor da ação subjacente) são as candidatas naturais a serem vendidas. São estas as opções mais “caras”, cujo valor extrínseco é o maior possível. No caso da ação VALE5, que neste momento (16 de março) custa aproximadamente R$ 27,00, a opção mais “apetitosa” para lançamento é a VALED28, que vence em 20 de abril e tem strike (valor garantido) de R$ 28,00. A propósito, esta opção está sendo vendida a R$ 1,58.
Meu critério particular para saber se vale a pena lançar uma opção, tem a ver com a taxa de juros. Embora a taxa de juros represente uma pequena parte do valor teórico da opção, ela tem importância muito maior para esta operação.
Usando ainda a VALE5 e a VALED28 como cobaias, o lucro com o lançamento da opção seria de 1,58 / 27,00 = 5,8% ao mês. Nada mau, considerando que a taxa-base de juros está próxima de 1% ao mês. Mas é prudente lembrar que este retorno é a recompensa que o investidor recebe por abrir mão dos lucros caso VALE5 suba além de R$ 28,00, além de correr o risco de uma queda brusca de VALE5.
Se o investidor desconfia que a VALE5 vai dar um salto em breve, poderia vender VALED30 ao invés de VALED28, diminuindo as chances de ser exercido e ainda percebendo um retorno de R$ 0,84 (3,1% ao mês).
Neste mês a decisão de vender coberto é fácil, porque a volatilidade está na estratosfera, o que aumenta o valor das opções. A decisão começa a ficar mais difícil quando o retorno sobre o investimento começa a ficar em 2%, 1,5%, cada vez mais próximo de uma aplicação em renda fixa (que não oferece risco algum). Foi o caso em meados do ano passado, quando a Bolsa ainda estava lá no alto.
Conforme as coisas se acalmarem na economia mundial, e/ou mais gente passar a vender opções, a tendência natural é a volatilidade cair, o que torna a venda coberta menos interessante frente à renda fixa. Assim, o investidor deve comparar o retorno potencial com a taxa de juros a cada nova operação, e pesar bem se o retorno compensa os riscos.
Meu nome é Elvis Pfützenreuter, sou pesquisador na área de ciência da computação. Também tenho grande interesse em finanças, tanto para fins de investimento pessoal como por curiosidade científica. Recentemente, escrevi um livro (ao lado) a respeito de opções, que talvez interesse a investidores que desejem conhecer melhor estes ativos.
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17.03.2009 às 17:08
Muito bom o artigo, vc poderia botar mais algumas “dicas” deste tipo.
Parabéns pelo Blog!
17.03.2009 às 18:15
Olá Affonso,
Registrada sua sugestão. Obrigado!
Espero sempre vê-lo por aqui.
Grande abraço.
Dalton Vieira
26.10.2009 às 20:35
Caro Dalton,
Parabens pelo Blog!
Seria correto afirmar que é impossivel PERDER (valor absoluto, sem levar em conta juros de mercado, e custo de oportunidade) na VENDA COBERTA? Ou seja, eu sempre “GANHAREI” o valor de venda das opçoes?
O maximo que poderia acontecer, seria eu deixar de Ganhar, pois, a ação pode subir muito e eu serei obrigado a vender?
Isso sem falar (agora falando sobre juros) que neste momento onde Renda Fixa paga em media 0,5% a.m, seria MUITO melhor fazer uma operação de venda coberta por mes?
Muito Grato,
Otto.
27.10.2009 às 10:18
Não é impossível perder. não. O cenário “infernal” para quem lança opções coberto é:
1) ação cai muito, as opções não são exercidas
2) você vende a opção abaixo do preço de custo pois a ação caiu muito e vender no mesmo nível do custo daria muito pouco dinheiro
3) a ação sobe de volta ao nível anterior, obrigando a vender por um valor baixo
Isto não é tão freqüente, mas acontece de vez em quando. Se a ação oscilar 5% não é nada preocupante, mas pode cair 50%, como aconteceu em 2008, e aí o prejuízo vai ser grande. De forma nenhuma a venda coberta deve ser vista como um investimento sem riscos!
27.10.2009 às 13:44
Olá Otto,
Muito obrigado pelas congratulações.
De forma simples é isso mesmo, ao lançar coberto você já vai garantir algum dinheiro, mesmo que seja pouco. No máximo você deixará de ganhar a valorização completa do papel ao ser exercido.
Por isso, no meu ponto de vista, é importante realizar o lançamento em resistências importantes e após um movimento de valorização mais forte de um determinado papel. Isto aumenta a probabilidade de obter mensalmente um retorno maior do que a renda fixa.
Obrigado pelo comentário.
Grande abraço.